segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Pastores pediram à Globo uma personagem evangélica heroína nas novelas; Especialista diz que emissora se aproximou em busca de “mercado consumidor”. Leia na íntegra


A aproximação entre a TV Globo e os líderes evangélicos de maior expressão nacional, como o pastor Silas Malafaia, bispo Robson Rodovalho e outros pertencentes à Concepab, rendeu um pedido especial e inusitado deles à emissora.

De acordo com informações do caderno Ilustrada, do jornal Folha de S. Paulo, os líderes convidados para reuniões pelo diretor global Amauri Soares pediram uma personagem evangélica heroína em uma das novelas que a emissora lançará em breve.

Embora o setor de teledramaturgia global tenha autonomia para criar personagens, a assessoria da emissora afirmou que os líderes evangélicos “manifestaram o interesse em falar sobre o perfil atual do evangélico brasileiro para autores e roteiristas”, numa clara intenção de desfazer estereótipos. “A emissora considera a contribuição relevante, assim como as que recebe de vários segmentos da sociedade, inclusive de outras religiões”, completou a nota.

A reunião sobre o tema, porém, não pôde ser realizada: “O Amauri [Soares] me explicou que a teledramaturgia é muito independente”, declarou o pastor Silas Malafaia, que foi ouvido pela reportagem da Folha.

A professora doutora da Unicamp, Karina Bellotti, que conduz estudos sobre mídia e religião na universidade, afirma que “nos últimos cinco anos, a Globo se aproximou desse público porque tem lhe conferido não somente peso de formação de opinião, mas também de mercado consumidor”.

Ela produziu um artigo especial para a Folha sobre a presença dos evangélicos na mídia, falando brevemente sobre a evolução da abordagem feita pelos veículos de massa, que no final dos anos 1980, tinha conotação pejorativa, devido aos escândalos provocados por alguns líderes neopentecostais.

-Muitos se perguntavam quem era esse grupo e como ele havia alcançado essa visibilidade, num país até então majoritariamente católico. O sentido das coberturas era em geral ofensivo, de reportagens investigativas, com câmeras escondidas, entrevistas com dissidentes, retratando de forma negativa a relação entre alguns grupos de evangélicos (os chamados neopentecostais) e a arrecadação de dízimos e ofertas. Reportagens mostrando cultos da Universal em estádios, com sacos de dinheiro sendo abençoados, foram mostrados de forma demonizadora, sendo contrapostas a depoimentos de outros líderes religiosos que condenavam a prática, afirmando que isso não era cristianismo – contextualiza a professora.

Segundo Karina Bellotti, houve mudança de postura, e ela se explica pelo crescimento de poder econômico, político e intelectual registrado no meio: “Da quase ausência de cobertura de eventos evangélicos, como a Marcha para Jesus, para a cobertura no ‘Jornal Nacional’ dos cem anos da Assembleia de Deus (2011), da Marcha para Jesus, e mesmo dos protestos feitos por Silas Malafaia contra o projeto de lei 122/06 (contra a homofobia), vemos uma mudança de atitude significativa”.

O foco da emissora, segundo Karina, é atualmente, dar visibilidade à busca do evangélico por transmitir uma imagem de cidadão que contribui com a sociedade: “Então, destaca-se essa autoimagem positiva, de povo honesto, trabalhador, que canta, louva, veste-se de forma elegante, mas sem ostentação; que é igual a todo mundo no dia a dia, e que leva sua crença muito a sério, pois enxerga na própria vida um testemunho a ser dado para quem não é evangélico –a ideia de ser ‘sal da terra, luz do mundo’”.

Já o blogueiro Julio Severo aborda o assunto a partir do ponto de vista estritamente comercial: “De acordo com o AdNews, a Globo fechou 2012 com o pior ibope de sua história. Para quem queria entender a “bondosa” atitude da emissora de se aproximar de líderes e cantores evangélicos de destaque, a resposta é óbvia: melhorar o ibope [...]Em anos mais recentes, a TV Globo vem sendo denunciada por sua patente hostilidade aos cristãos, e sua programação com tal discriminação anticristã não é poupada de críticas”, escreveu Severo.

Para ele, “a tradição global de nudez e sexo nas novelas parece não incomodar tanto o seu antigo público evangélico quanto temas de espiritismo e anticristianismo. Para estancar a perda desse público e de ibope, a Globo vem procurando amenizar suas posturas anticristãs, até mesmo patrocinando eventos de cantores evangélicos”, afirmou, referindo-se ao Festival Promessas.

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